A ilusão da vida fácil no futebol
Começo este texto com uma frase que talvez todos nós já tenhamos ouvido, “Prá que estudar ou trabalhar, se jogando futebol, podemos ficar ricos”, ela continua atual, na boca de muita gente. No entanto, é nossa tarefa de educadores, desmistificarmos o tema.
Vamos começar pelo senso comum, apresentando os salários dos 20 jogadores mais caros da atualidade, onde figuram dois brasileiros:
Nome Equipe salário mensal salário anual
1º- Cristiano Ronaldo Real Madrid 1.000.000 € 12.000.000 €
2º- Lionel Messi FC Barcelona 875.000 € 10.500.000 €
3º- Fernando Torres Chelsea 833.000 € 10.000.000 €
4º- Yaya Touré Manchester City 833.000 € 10.000.000 €
5º- Wayne Rooney Manchester United 791.000 € 9.500.000 €
6º- Ricardo Kaká Real Madrid 833.000 € 9.000.000 €
7º- Zlatan Ibrahimovic AC Milan 833.000 € 9.000.000 €
8º- Emmanuel Adebayor Real Madrid 708.000 € 8.500.000 €
9º- Carlos Tevez Manchester City 666.000 € 8.000.000 €
10º- Samuel Eto´o Internazionale 666.000 € 8.000.000 €
11º- Frank Ribery Bayern Munique 666.000 € 8.000.000 €
12º- John Terry Chelsea 625.000 € 7.500.000 €
13º- Frank Lampard Chelsea 625.000 € 7.500.000 €
14º- Steven Gerrard Liverpool 625.000 € 7.500.000 €
15º- Xavi FC Barcelona 625.000 € 7.500.000 €
16º- Anders Iniesta FC Barcelona 583.000 € 7.000.000 €
17º- David Villa FC Barcelona 583.000 € 7.000.000 €
18º- Daniel Alves FC Barcelona 583.000 € 7.000.000 €
19º- Edin Dzeko Manchester City 541.000 € 6.500.000 €
Cotação do Euro, em R$: 2,2415; (em 03 de Agosto de 2011).
Com objetivo apenas de um parâmetro, temos jogadores como Kaká, que tem salário (se convertido para moeda nacional) de R$1.867.169,50, um verdadeiro milionário.
A pirâmide salarial dos jogadores de futebol no Brasil
Este é um ponto crucial, para se entender a ilusão econômica produzida em torno do futebol, pelos meios de comunicação de massa e que se reproduz no ideário da grande maioria da população, acreditando ser o futebol a saída para os males econômico-sociais que nossos jovens vivenciam todos os dias. Abaixo texto baseado em dados apresentados pelo órgão máximo do futebol, a Confederação Brasileira de Futebol: “Os salários de jogadores no Brasil são baixos se considerarmos os sonhos de mobilidade social e econômica dos jovens, em sua maioria oriunda das camadas populares. A pirâmide salarial dos jogadores profissionais no Brasil não mudou muito nos últimos oito anos. Os dados divulgados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 1999 indicavam que 51,6% dos jogadores recebiam até um salário mínimo (hoje, cerca de R$550,00) e 33,2% até dois (R$1.100,00); se somados esses percentuais podemos pensar que 84,8% dos jogadores recebiam salários que variam entre 160 a 320 dólares mensais pelos valores atuais, acima de dez salários mínimos apenas 5,2% (PRONI, 2000). O ano de 2003, por exemplo, revela a seguinte distribuição: 82,41% percebem entre 1 a salários mínimos, 2,05% entre 10 e 20 salários mínimos e apenas 3,57% acima de 20 salários mínimos (HELAL; SOARES; SALLES, 2005).”
Os dados acima mostram e desnudam a verdadeira situação, mostrando mais uma vez que a sociedade capitalista não tem meios para criar oásis dentro do grande deserto que é este sistema de exploração do homem pelo homem, nem mesmo nos esportes, nem no mais poderoso deles. E que em todas as áreas laborais humanas, a relação de exploração mantém determinados padrões, em resumo, milhões de miseráveis para algumas poucas centenas de milionários.
A enorme concorrência no Futebol
Além da tamanha desigualdade salarial na carreira de futebolista, mostrada na pirâmide salarial, os problemas são ainda maiores para os que querem fazer do futebol um meio de vida. Outro empecilho é a enorme concorrência, de acordo com dados não muito precisos, “está estimado entre 10 a 15 mil postos de trabalho. Parte desses postos são empregos sazonais e bastante precários. “Existem no Brasil em torno de 500 clubes de futebol credenciados às subsidiárias da FIFA (agência internacional que detém o monopólio do futebol de espetáculo)” (DAMO, 2005 p. 16). Poder-se-ia pensar que esse número é expressivo em se tratando dos postos principais de trabalho nessa indústria do espetáculo, mas algumas ressalvas devem ser feitas.
Dos 500 clubes credenciados apenas 4%, isto é, 20 clubes, detêm 90% da preferência dos torcedores (DAMO, 2005). Isso indica que o potencial de exploração do produto que os clubes podem vender junto ao público consumidor (torcedores) é desigual e acarreta uma redução significativa dos postos de trabalho bem remunerados. Se calcularmos que uma equipe possui, em média, 26 atletas na equipe principal, teremos cerca de 520 postos de trabalho na parte mais valorizada do mercado, isto se considerarmos os 20 principais clubes no Brasil que disputam o campeonato nacional da primeira divisão”. (MERCADO, ESCOLA E A FORMAÇÃO DE JOGADORES DE FUTEBOL NO BRASIL, Antonio Jorge Gonçalves Soares – UFRJ, Tiago Lisboa Bartholo – UFRJ)
Para efeito de comparação, os dados relativos a postos de trabalho de outra profissão também concorrida, em que pesem os problemas estruturais. Em 2006, a Rais (Relação anual de informações sociais) registrou 2.803.761 empregos para professores no Brasil, em todos os níveis de ensino. Nada menos que 77% desses empregos – 2.159.269 – são de professores da educação básica, a qual compreende a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio. (Professores do Brasil: impasses e desafios / Coordenado por Bernadete Angelina Gatti e Elba Siqueira de Sá Barreto. – Brasília: UNESCO, 2009. página 18)
Pegando o primeiro dado 2.803.761 e dividindo pelo teto de jogadores profissionais no país temos a relação de um jogador de futebol para cada 187 professores.
Quero deixar claro, que sou mais um apaixonado pelo esporte e não quero acabar com os sonhos de nenhum garoto, que espera no futebol uma saída para sua vida, muitas vezes a única, mas como profissional da área, quero principalmente ajudar a ampliar estes dados, para que todos os interessados possam fazer uma análise crítica do profissionalismo no futebol, que acaba sendo um triturador de ilusões.