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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Ditadura militar egípcia provoca um dos maiores massacres na história do futebol

Um ano após o início da chamada primavera árabe, com as mobilizações no egito, onde milhares de egípcios saíram às ruas para pedir o fim da ditadura militar no país, provocando a renuncia do ditador Osni Mubarak, junta militar que assumiu em seu lugar (querendo também se perpetuar no poder) organiza massacre contra torcedores de time de futebol ( AL AHLI ) que se encontravam na frente das mobilizações por liberdades e democracia contra a ditadura de Mubarak.

No último dia 1º de fevereiro ,  jogo de futebol na cidade de Port Said envolvendo as equipes do Al Ahli (equipe da capital, Cairo) e a equipe do Al Masry, terminou com um saldo de 74 mortos e mais de mil pessoas feridas. Um massacre orquestrado politicamente pela atual junta militar que governa o país desde a queda de Mubarak.

Abaixo publico, texto do poeta e ativista político egípcio Amor Eletrebi:

Antes no entanto uma uma observação, no texto ele usa o termo arruaceiro de maneira irônica, para rebater um órgão da imprensa egípcia; que assim como ocorreu no Brasil durante as primeiras divulgações do massacre; que disse que o massacre ocorrido foi em decorrência de brigas generalizadas efetuadas por arruaceiros, o que foi totalmente desmentido horas depois por variadas outras informações.

“Por volta das três da manhã, na madrugada posterior aos confrontos, encontrei um grupo de 30 pessoas marchando silenciosamente pela rua, como fantasmas escuros. Estavam a caminho da estação ferroviária, onde receberiam os torcedores arruaceiros em sua chegada de Port Said, o local da partida.

"Só erguerei a bandeira do meu time, e não a do Egito, até conversar com meus irmãos e descobrir o que realmente aconteceu lá", disse um dos jovens arruaceiros, que em seguida começou a gritar lemas contrários às pessoas de Port Said, a cidade do time adversário. "É exatamente isso que eles querem", declarou outro arruaceiro, mais velho. "Aos diabos com o futebol, desde que nós egípcios derramemos o sangue uns dos outros". Os demais torcedores ecoaram: "Aos diabos com o futebol".

Na estação ferroviária, alguns milhares de torcedores aguardavam o retorno dos heróis vitoriosos. Havia torcedores arruaceiros e não arruaceiros, ativistas e pessoas que nada tinham a ver com o futebol. Mães, irmãs e irmãos chegaram de mãos dadas, caminhando em meio à multidão com olhos avermelhados, fatigados mas sem lágrimas. Haviam passado a noite toda sem ouvir notícias de parentes. E estavam lá para provavelmente serem notificados de sua morte.

O trem chegou e as pessoas se descontrolaram. Começamos a cruzar os trilhos aos saltos, correndo para a plataforma. O trem foi cercado e sacudido, tão logo parou, e algumas pessoas subiram nele e caminhavam no topo dos vagões, sem ter para onde ir. Os heróis desembarcaram, chorando e gritando de dor. (A maioria deles passara horas gritando de dor no trem.) Alguns simplesmente recusaram os abraços, desejando ter morrido com os demais.

"Digam bem alto, digam sem medo: abaixo o governo militar!", era o cântico que ecoava pela estação enquanto os arruaceiros desembarcavam do trem em seu retorno. Ninguém tinha dúvidas quanto a que lema entoar, àquela altura.

Os cânticos ecoavam vigorosamente na estação, entremeados por gritos e choro histérico.

"Pessoas morreram; vi pessoas morrendo", disse um dos arruaceiros retornados, irrompendo em lágrimas. Outro homem acrescentou, enquanto tentava acalmá-lo: "Pelo menos você sobreviveu". Mas o arruaceiro choroso rebateu: "Preferiria não ter sobrevivido. Preferiria ter morrido lá com eles".

Todas as histórias que ouvi dos torcedores de retorno diziam a mesma coisa, e os vídeos confirmam a alegação: a situação foi inteiramente orquestrada pela polícia e pelas forças armadas, em múltiplos níveis, começando pela decisão de não revistar os torcedores na entrada, e seguindo pela abertura dos portões do gramado aos torcedores adversários pouco depois do final da partida, pela não interferência da polícia quando os choques começaram e pela decisão de apagar as luzes, dois minutos mais tarde, criando um caos escuro, ou melhor, um caos no escuro.

E fazia perfeito sentido para todos. A polícia e as forças armadas estavam se vingando dos torcedores arruaceiros, um bando de garotos que, armados de pedras e coqueteis Molotov, derrotaram as forças policiais e suas balas de borracha, gás lacrimogêneo e munição letal em muitos confrontos no ano passado. Foi praticamente um assassinato, um crime político com dimensão física.

"A cidade está com jeito de cidade fantasma", disse um taxista, olhando as ruas. "O que você quer dizer?", perguntei. Ele respondeu: "ªVeja, ninguém está falando, todos tristes, cabisbaixos. A notícia da morte de todas aquelas pessoas no jogo de futebol nos deixou mais tristes que nunca".

No que tange ao papel que os torcedores arruaceiros exerceram na revolução até agora, é o fim da vida e o começo da sobrevivência.”



AMOR ELETREBI, 23, poeta e ativista egípcio, é colaborador da rede Al Jazeera.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

Folha de São Paulo 11/02/2012



Entre vários fatos apurados nos dias posteriores à tragédia, há relatos de torcedores do Al Masry dizendo que havia muitas pessoas infiltradas na torcida armadas e incitando a violência durante a partida contra os torcedores e jogadores do Al Ahli. Após o apito de fim de jogo centenas de pessoas vindo do lado da torcida do Al Masry,  começaram a invadir o campo em direção aos jogadores e à torcida do Al Ahli. Mais de cem policiais que estavam no interior do Estádio simplesmente não se moveram, ficaram totalmente inertes. Os portões da torcida visitante, que se abrem sempre 15 minutos antes do fim das partidas permaneceram fechados, as luzes do Estádio foram apagadas dois minutos após o fim do jogo. Não houve, antes da partida, a revista das pessoas que adentravam o estádio na torcida do Al Masry, pelos policiais designados para isso.

Todos os fatos acima demonstram que o ocorrido em 1º de Fevereiro de 2012 em Port Said, foi um atentado político contra o povo egípcio, especialmente contra os Ultras, uma das torcidas organizadas do Al Ahli, que enfrentou de frente a ditadura de Mubarak, um ano atrás. FOI A VINGANÇA  DOS FILHOTES DA DITADURA. ESSES SIM, VERDADEIROS CRIMINOSOS...DE ESTADO.

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