Uso de serviços médicos com fins
militares
Caros colegas, estou postando na íntegra texto do Médico
Dráuzio Varella, publicado na edição do jornal Folha de São Paulo do último dia
08/09/2011. Com a intenção modesta de denunciar também os abusos a que podem
chegar os donos do poder norte americanos, que se utilizaram de uma fraude de saúde
pública contra milhares de paquistaneses para chegar ao seu ex aliado Bin
laden. É repugnante.
O DNA de Bin Laden
Neste sábado, caro leitor, vou contar uma história que
parece mentira. De início, deixo claro que dela tomei conhecimento através de
duas fontes dignas de crédito: a revista "Science", publicação
oficial da Academia Americana de Ciências, e o jornal inglês "The
Guardian".
Obstinadamente empenhada na caça a Bin Laden, a U.S. Central
Intelligence Agency (CIA) elaborou um plano que nada fica a dever à melhor
ficção científica.
A agência havia recolhido indícios de que o homem mais
procurado do mundo viveria pacatamente com os familiares em determinada área da
cidade de Abbottabad, no Paquistão, mas desconhecia o local exato, informação
necessária para que o grupo de elite, conhecido como Seals, montasse a
estratégia para o ataque final.
Segundo o "Guardian", para executar o plano, os
agentes da CIA contaram com a ajuda de um colaborador paquistanês, o médico Shakil
Afridi, funcionário graduado do serviço público, hoje preso em seu país por
haver se mancomunado com agentes estrangeiros no complô descrito a seguir.
Em março deste ano, com a colaboração do doutor Afridi,
técnicos de saúde anunciaram uma campanha de vacinação gratuita contra a
hepatite B. Para disfarçar o verdadeiro objetivo da empreitada, o programa foi
iniciado num dos subúrbios mais pobres de Abbottabad.
Depois de administrar a primeira dose da vacina para os
habitantes daquela área suburbana, os técnicos transferiram os equipamentos
para uma clínica situada em outro bairro da cidade, justamente nas vizinhanças
do local em que supunham encontrar Bin Laden.
A intenção não era simplesmente bisbilhotar as casas em
busca daquela em que morava o homem procurado. O plano era mais complexo.
O que os agentes americanos pretendiam era que as
enfermeiras encarregadas de aplicar a vacina em seguida colhessem amostras de
sangue das crianças. De posse delas, seria feita a separação do DNA para
compará-lo com aquele obtido de uma das irmãs de Bin Laden, morta na cidade
americana de Boston, em 2010.
Dessa forma, esperavam identificar o DNA de um dos filhos do
inimigo para chegar com certeza ao endereço do pai.
É provável que o complô tenha tido êxito, porque as enfermeiras
encarregadas de administrar a vacina nos domicílios e colher sangue das
crianças obtiveram permissão para entrar na área dos empregados que trabalhavam
na residência do homem-alvo.
A esta altura, leitor cético, você estará imaginando que a
"Science" e o "Guardian" aceitaram como verdade uma versão
fantasiosa, simplesmente porque os seres humanos são dotados de uma boa vontade
incrível para acreditar em complôs. Em especial, quando envolvem serviços
secretos como a CIA, terrorismo internacional e países exóticos.
Está enganado; o próprio governo americano confirmou os
fatos através de um comunicado à imprensa: "A campanha de vacinação foi
parte de uma caçada ao maior terrorista do mundo, nada além disso. Foi uma
vacinação verdadeira conduzida por profissionais da área médica. Esse tipo de
ação não é realizado pela CIA todos os dias".
A Organização Mundial da Saúde, a Unicef, a Cruz Vermelha
Internacional e os Médicos sem Fronteiras protestaram veementemente contra o
uso de serviços médicos para uma população necessitada com finalidades
militares.
No Paquistão, morrem de doenças que seriam prevenidas por
vacinação 150 mil crianças por ano. A suspeição e a desconfiança dos
paquistaneses em relação aos países ocidentais agravam o problema.
Em 2007, clérigos extremistas muçulmanos lançaram rumores de
que as vacinas contra a poliomielite oferecidas à população tinham o propósito
de disseminar a Aids e esterilizar meninas muçulmanas. Como resultado, 24 mil
famílias se recusaram a vacinar os filhos, e algumas clínicas foram depredadas.
As organizações citadas estão trabalhando com os governos
locais para reforçar entre os habitantes a importância e a segurança da
imunização.
Sophie Delawney, diretora-executiva dos Médicos sem
Fronteiras, resume o que penso a respeito desses acontecimentos: "Existem
regras que devem ser obedecidas mesmo durante as guerras. A ética médica é
universal".
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